História
Sessão Inaugural do Concelho de Castanheira de Pera
04 de Julho de 1914
Manuel Alves Bebiano,
Manuel Correia de Carvalho,
Joaquim Diniz,
José Sebastião da Gama,
José Simões, José Henriques Lopes,
Serafim Fernandes,
Manuel Filipe Tomás,
Manuel Fernandesnde Carvalho,
Joaquim Fernandes Dias,
Manuel Antunes Cepas,
João Domingues Rosa,
Augusto Alves Pereira,
João Fernandes Henriques e
Celestino Henriques da Assumpção.
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Artigo 1ºSão desanexadas do concelho de Pedrogão Grande as freguesias de castanheira de Pera e Coentral, para constituírem o concelho autónomo de Castanheira de Pera, com sede nesta povoação.
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Artigo 2ºO governo, pelo Ministro do Interior, fixará o dia para a eleição nos dois concelhos de Pedrógão Grande e Castanheira de Pera, das respectivas câmaras municipais e procuradores à junta geral, nos termos da lei eleitoral, perdendo os seus lugares nos cargos administrativos os cidadãos actualmente eleitos.
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Artigo 3ºFica revogada a legislação em contrário.
Discurso do deputado Vitorino Godinho no Congresso da República
Senhores Deputados:
Castanheira de Pera é uma das mais florescentes povoações do paiz onde se poder observar de quanto é capaz o esforço e a iniciativa individuaes bem orientados. Com uma vida commercial bastante extensa e intensa tendo olhado com o maior cuidado o problema da instrucção com um hospital modelar e muitos outros melhoramentos locaes atestando o amor que os naturaes votam á sua terra, ella destaca se e torna se notavel principalmente sob o ponto de vista industrial, constituindo um dos mais importantes centros fabris de Portugal. De facto encontram se naquela pitoresca e interessante povoação quatorze fabricas de lanifícios que anualmente consomem 639 000 kilos de lã, tres fabricas de artefactos de malha e muitas outras instalações industriaes da menor importancia.
De longa data veem os habitantes de Castanheira de Pera reclamando com um acto de simples justiça a criação do seu concelho E que por razões lhes assiste, attestam no bem a pujança da sua vida commercial e industrial, o numero relativamente elevado dos seus habitantes 5 684 e as suas contribuições para a fazenda nacional e para o município e para se fazer uma ideia clara de que a criação do concelho de Castanheira de Pera não acarretaria embaraços financeiros á sua vida, basta examinar o quantum das suas contribuições, em alguns dos últimos anos.
(...) Ao norte de Castanheira existe outra freguezia do concelho de Pedrogam, Coentral (839 hab.) que com aquellas se encontra em faceis communicações e que naturalmente deverá fazer parte do novo concelho, que assim ficará com 6.523 habitantes
LEI nº 203, de 17 de Junho de 1914
Finalmente, é publicada no Diário do Governo nº 99 a Lei n º 203 através da qual é reconhecida a emancipação municipal:
Artigo 1º São desanexadas do concelho de Pedrogão Grande as freguesias de castanheira de Pera e Coentral, para constituírem o concelho autónomo de Castanheira de Pera, com sede nesta povoação.
Artigo 2º A cargo deste concelho ficam os encargos que proporcionalmente lhe pertençam naqueles que ao presente impedem sobre o concelho donde é desanexado.
Artigo 3º O Governo, pelo Ministro do Interior, fixará o dia para a eleição nos dois concelhos de Pedrógão Grande e Castanheira de Pera, das respetivas câmaras municipais e procuradores à junta geral, nos termos da lei eleitoral, perdendo os seus lugares nos cargos administrativos os cidadãos atualmente eleitos.
Artigo 4º Fica revogada a legislação em contrário.
A 4 de Julho de 1914 tomou assento a Comissão Instaladora da Câmara Municipal Data assinalada no feriado municipal, que celebra a elevação de Castanheira de Pera a sede de concelho
Os Valores Fundacionais do Município
Discurso do 1º Presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera Dr. Eduardo da Silva Correia
Eduardo da Silva Correia
(1863-1927)
A Câmara do novo Concelho empenhará os seus melhores esforços em fazer uma administração inspirada só nos altos interesses públicos e pautada pela mais severa e escrupulosa honestidade.
Não tentará enveredar pelos atalhos da politiquice, que degrada, nem da perseguição que desprestigia e avilta.
Procurará fortalecer o novo município, sem sectarismos nem intransigências, porque à sua sombra bem dita, como á sombra abençoada da árvore da Pátria poderão e deverão acolher-se todos os munícipes com a mesma liberdade e igualdade, qualquer que seja a sua crença política, a sua posição social, ou a sua confissão religiosa, porque o Concelho de Castanheira de Pera é de todos e para todos os que quizerem ordem e trabalho.
Os dinheiros públicos merecerão à Câmara do novo município todo o respeito e zelo, aplicando-se somente onde as necessidades publicas o reclamarem e justifiquem, mas sempre com equidade. Nunca da tesouraria da Câmara sairá um centavo para corromper consciências, nem locupletar afilhados, nem angariar falsas simpatias.
A instrução e educação popular era um assunto momentoso que merecia à Câmara a mais decidida e desvelada atenção (…)»
Reformas Administrativas
Antes 1895 - Pedrógão Grande
Castanheira de Pedrógão
1895-1898 - Figueiró dos Vinhos
Extinção do Concelho e Comarca de Pedrógão Grande, cujas frequesias passam a integrar o Concelho de Figueiró dos Vinhos.
Figueiró dos Vinhos perde Freguesias de Avelar, Chão de Couce, Maçãs de Dona Maria e Pousaflores para Ansião e Alvaiázere.
1898-1914 - Pedrógão Grande
5 Freguesias: Castanheira, Coentral, Graça, Pedrógão e Vila Facaia.
1914 - Fundação do Concelho
2 Freguesias: Castanheira e Coentral.
2013 - União das Freguesias de Castanheira de Pera e Coentral
Freguesia única.
Fundação do Concelho
Castanheira de Pera pertenceu à freguesia de Santa Maria de Pedrógão. Em 1502, foi fundada a freguesia de Castanheira de Pera. Mais tarde, em 1691, a freguesia do Coentral.De 1895 a 1899, Castanheira e Coentral pertenceram ao concelho de Figueiró dos Vinhos, quando o concelho de Pedrógão Grande foi extinto. Em 1899, um decreto restaurou o concelho de Pedrógão e Castanheira e Coentral voltaram a pertencer a este concelho.
A importância social e económica de Castanheira, decorrente do desenvolvimento da indústria de lanifícios, impunha-se ao concelho que, radicado em Pedrógão, era acusado de "administração desligada dos interesses das povoações do nordeste".
Castanheira pretendia, assim, desanexar-se de Pedrógão. Porém, as lutas políticas e as rivalidades eram muitas.
Numa terrível campanha eleitoral, em 1913, a lista da Castanheira conseguiu a vitória para a Câmara de Pedrógão, por escassos três votos. Conquistada a Câmara, estavam abertas as portas para a autonomia municipal.
Foi elaborado o projecto de lei n.º 47-A, da autoria de Victorino Godinho, que justificava a criação d4 de Julho de 1914 - Festa de inauguração do Concelho [clique para ampliar]o concelho de Castanheira de Pera: "Castanheira de Pera é uma das mais florescentes povoações do país (…) atestam-no bem a pujança industrial e comercial, o número relativamente elevado dos seus habitantes (5.684) e as suas contribuições para a Fazenda Nacional e para o município. (…) Ao norte da Castanheira existe outra freguesia do concelho de Pedrógão, Coentral (839) habitantes, que com aquela se encontra em fáceis comunicações e que naturalmente deverá fazer parte de novo concelho, que assim ficará com 6523 habitantes (…)".
A lei n.º 203, que aprovava a criação do concelho, foi publicada no Diário do Governo, I ª série, n.º 99, de 17 de Junho de 1914. Em 4 de Julho de 1914, é fundado o concelho de Castanheira de Pera.
Um dos períodos mais complicados, mas também dos mais pitorescos do concelho de Castanheira de Pera foi o que decorreu de 1923 a 1926 - período em que houve dois executivos camarários antagónicos que se auto-consideravam legítimos e que, em nome da lei, cobravam impostos e aplicavam multas.
Mergulhar nas águas da Ribeira de Pera, descendo às praias fluviais do Poço Corga, Rocas e Mosteiro, é imergir no conto desta terra de encantos e viçosas paisagens – literalmente, de despertar a cobiça e causar inveja!
«E dizem mais, que algumas vezes se ouve ainda hoje gemer, e suspirar esta Peralta, indo assim desfeita em águas ao entrar no rio Zacor, ou Ozecaro (agora este nosso Zêzere)».
Seguir-se-ia a edificação e ampliação da Real Fábrica do Gelo, na serra de Montejunto. Três diferentes métodos de fabrico de gelo provenientes de três locais distintos: na Estrela e no Coentral, através da recolha e compactação da neve, diferindo a edificação de poços dos covões naturais, e, em Montejunto, por meio de um sofisticado sistema hidráulico de congelamento natural, em que a água retirada de um grande poço era distribuída pelas quatro dezenas de tanques rasos, formando durante a noite mantos de gelo, depois retirados e compactado num grande silo ou poço.
Não se sabe ao certo quando foram construídos os poços da neve no Coentral. O alvará de D. José remonta a sua existência a pelo menos 1757, fazendo prevalecer junto do Marquês de Pombal os privilégios concedidos a Julião Pereira de Castro para o exercício do ofício de neveiro, mediante a obrigação de fornecer a neve à casa real. O gelo era transportado em carroças até ao porto da Barquinha, descendo pelo Tejo até ao Terreiro do Paço. Refrigerado o requinte dos paladares da corte, o gelo tornar-se-ia luxuosa moda nas “casas das neves” e nos novos botequins de Lisboa.
Do fabrico do gelo no Santo António da Neve ficou a memória nos contos da tradição oral compilados pelo saudoso Herlander Machado no livro «Coentral – Terra de Encantos» (1991):
«Os poços da neve tinham uma profundidade superior a uma dezena de metros. Exibem, ainda, o aspecto tosco das suas construções circulares e octogonais, cobertas por cúpulas abobadas – tudo edificado com pedra negra, da região, e uma só porta, estreita, constituía o acesso. Utilizando escadas de mão, os homens desciam ao fundo desses poços e, à medida que neles ia sendo despejada a neve, calcavam-na com pesados maços de madeira – como os calceteiros de hoje. Empedernida, isolada entre os paredões alisados pelo estuque, coberta com palha, a neve conservava-se até ao Verão, sem que uma réstia de sol lhe pudesse chegar. Eram as mulheres e os garotos das aldeias vizinhas contratados, à jorna, para acarretar cestas com neve para os poços (…). Quando chegava o Verão, a neve era cortada em pedaços e vinha, em grandes blocos, para Lisboa, envolvida em palha, fetos, serapilheira, ou, até metida em caixotes.»
Predominou uma produção artesanal até 1860, altura em que foi criada a primeira fábrica.
José Antão fundou a primeira fábrica do concelho, na Abelheira de Baixo, movida por roda hidráulica. JFábrica da Retorta [clique para ampliar]osé Antão era um comerciante ambulante da Gestosa Fundeira, que comprava os seus artigos no Porto e vendia-os ou trocava-os por lã no Alentejo. De espírito arguto, resolveu manufacturar a sua lã, fundando, em 1860, uma fábrica.
Muitas fábricas se seguiram: Retorta, Várzea, Safrujo, Esconhais, Rapos, Pereiros, Torgal, Bolo, Foz, entre outras.
Um grande amor à terra, as naturais tradições do fabrico de lanifícios e a fonte de energia natural, que era a Ribeira de Pera, favoreceram este surto de desenvolvimento. A população não dependia, agora, apenas de uma agricultura de subsistência, das migrações para o Ribatejo e Alentejo, da emigração para o Brasil ou dos seus rebanhos, pisões ou teares caseiros; havia as fábricas.
A implantação industrial foi o motor de desenvolvimento de Castanheira de Pera, que chegou a ser o terceiro centro nacional da indústria de lanifícios.
Os Lanifícios na Ribeira de Pera
A Manufatura da Lã e os Pisões
Solos pedregosos, predominantemente xistosos, as pequenas leiras férteis, duramente amanhadas entre botaréus e socalcos, eram de curto sustento para o desenvolvimento da agricultura familiar. Na base da economia agrossilvopastoril, as numerosas cabeças dos rebanhos lanígeros cobrem os pastos nas serras, fornecendo a matéria-prima para a manufatura dos lanifícios na tecelagem dos tradicionais buréis, surrobecos e mantas.O primeiro registo documental que atesta a importância da pastorícia no sustento dos povoados que habitam as margens da Ribeira de Pera é uma sentença judicial de 1467, no apelo feito a Afonso V por cinco casais de pastores deste lado da serra, na contenda que os opunha aos juízes da Lousã sobre o uso das pastagens nos terrenos baldios para lá dos termos do concelho.
No cumprimento do Regimento da Fábrica de Panos de 1573, promulgado por D. Sebastião, a Câmara de Pedrógão Grande procede, no ano seguinte, à nomeação dos juízes e vedores encarregues de examinar os bons ofícios dos cardadores, tecedeiras, tecelões e pisoeiros na manufatura das lãs e do linho.
Em 1839, na resposta ao inquérito da Câmara dos Deputados dedicado ao exame da “indústria agrícola, fabril e comercial”, a Câmara de Pedrógão Grande não procedeu à nomeação de um “representante da classe fabril, por não haver no concelho”, mais precisando os moldes artesanais da fabricação de panos de linho e de lã.
Câmara Municipal de Pedrógão Grande, 1839
Dos centros laneiros da Covilhã e Portalegre ao impulso industrial da moderna fabricação de tecidos em Lisboa, Porto, Alenquer, Tomar ou Torres Novas, até à segunda metade de oitocentos não existem referências a fábricas na região. Destacam-se as pequenas unidades produtivas artesanais. Transpondo os vales de Góis até aos arrabaldes de Coimbra, pelas ribeiras do Sinhel, Mega e Pera se pisoavam os grosseiros tecidos de lã, no movimento rudimentar do engenho pré-industrial por ação da roda motriz.
Na etnografia dedicada aos «Pisões Portugueses» (1960), Ernesto Veiga de Oliveira recorda o labor dos “tecelões de Goes”, já referido nas indagações relativas aos tecidos de lã de Fradesso da Silveira, que “faziam saragoças, buréis, picotilhos, mantas e também estamenhas, urdidas com estopa e tramada com lã preta, comprando lã em Trás-os-Montes e no Alentejo, e vendendo os seus produtos nos mercados de Aveiro, das Beiras, do Alentejo e Algarve, e até Espanha (…)”. António Santos Pereira, na obra «A Indústria Têxtil Portuguesa» (2017) também faz referência aos lanifícios de Góis “onde as cerca de trezentas arrobas de produção local de lã eram transformadas em cobertores, panos de saragoça e estamenhas e meias, através da utilização de pisões locais, particularmente na freguesia de Alvares”.
A Roda Hidráulica
A Força Motriz da Industrialização
Atividades morosas que requeriam abundante mão-de-obra de cardadores e fiandeiras, é através da mecanização da cardagem e da fiação das lãs que se dá, pelo movimento gracioso da roda hidráulica, o arranque da industrialização dos lanifícios na Ribeira de Pera.Força motriz das novas engrenagens industriais, “às correntes d'água artificialmente applicadas como potenciais actuantes e moventes pode-se dar-lhe o nome expressivo de ulha branca, em comparação com o carvão de pedra, quando aplicada para os mesmos effeitos”– assim era a espuma da água, caindo nos açudes e correndo na levada, descrito na edição de agosto de 1902 do jornal «O Figueiroense».
São avultados os investimentos na construção dos edifícios, nalguns casos de difícil acesso no encaixe escarpado da ribeira, e na compra da maquinaria importada da França ou Bélgica, feita transportar, desde o ramal ferroviário da Lousã, por rudimentares caminhos na demorada e perigosa travessia da serra, que requeriam os cabedais e o esforço empreendedor de homens visionários.
A Ribeira de Pera, caudalosa no inverno, mesmo no verão leva, na maior parte do seu curso, agua sufficiente para dar movimento, e pena é que n’aquella freguezia não haja sufficientes recursos para a construção de muitas fabricas, pois que vemos perdida uma corrente de agua que se fosse aproveitada em todos os pontos, tornaria aquella terra florescente, e poderia assimilar-se em commercio e industria com a Covilhã e Gouveia.» – Diário de Lisboa, 1864
A Luz Elétrica
Por meio da instalação de uma turbina elétrica no açude do Pisão Novo, propriedade de Manuel Diniz Henriques, a luz elétrica ilumina as ruas da vila em finais de 1912. Antes, no açude do Moinho da Luz, já havia sido construída a primeira central elétrica para fornecimento da fábrica do Rapos. Fundada em 1874 por António Alves Bebiano, “sob a administração do sr. Dr. Baeta Neves foi beneficiada com um lavadoiro, moinho de fazer farinha e deposito para as lãs dos freguezes, constando-nos que pretende melhoral-a com illuminação a luz electrica” – reporta «O Figueiroense» em 1902. A 10 de maio de 1914, dando notícia do Cortejo Cívico realizado nas ruas da vila, que proclamava a emancipação concelhia, saía a primeira edição do jornal «O Ribeira de Pera», financiado pela “Central Hydro-Electrica”.Os Lanifícios na Ribeira de Pera
O terceiro centro industrial
Pertença de António Alves Bebiano, a magnífica fábrica dos Esconhais começou a ser construída em 1866, concluindo-se a instalação da moderna tecelagem mecânica em 1879. À época do Inquérito Industrial de 1881, a terceira maior fábrica de lanifícios do país, com capitais fixos de 180.000$00 réis, servia-se dos motores de “duas rodas hydraulicas, com a força de 40 cavalos, duas turbinas com força de 32 cavalos, e 4 vapores com a força de 150 cavalos, dois d’estes vapores com a força de 50 cavalos substituem aquelles motores na estação do verão e um vapor da força de 100 cavalos trabalha diariamente”.Nela laboravam 140 homens, 124 mulheres e 52 crianças, no total de 316 operários. Por esta altura, nos cálculos de António Alves Bebiano, que nesse ano recebera de D. Luís I o título de Visconde, as fábricas da Ribeira de Pera empregariam cerca de 1000 operários. A dimensão do empreendimento industrial impressionava. Em 1875 a fábrica dos Esconhais é descrita no apontamento geográfico dedicado a ribeira de “Pêra”, no Diccionário de «Portugal Antigo e Moderno» de Augusto Pinho Leal, como sendo “uma das melhores do género” do país.
Alem dos motores hydraulicos, tem uma bonita machina franceza, a vapor, da força de 25 cavallos, para suprir no verão a falta d’água.
Em setembro de 1874, montou-se uma rambulla mecânica, para enchugo dos pannos, no inverno, dirigindo o trabalho o mesmo engenheiro francez que montou a machina a vapor.
Fronteira à primeira casa das machinas descriptas, ha uma outra de egual comprimento, que serve de casa de habitação, armazéns de lãs, escriptorio, prensas e serralharia, com um grande e espaçoso terreiro no centro, e próximo uma boa eira para enchugo das lãs.
Em uma outra casa, superior a estas, construída ha pouco, ha uma roda hydraulica, feita em Lisboa, da força de 15 a 20 cavallos, com a vantagem de que a agua que d’ella sae, vae tocar as outras que lhe seguem: esta roda serve de motor aos teares mecanicos, cuja regularidade e trabalho é muito perfeito.
Para supprir no verão a falta d’agua, fez o sr. Bebiano acquisição d’uma locomovel, da força de 12 cavallos.” – Augusto Pinho Leal, «Portugal Antigo e Moderno»
- Fábrica de Lanifícios de Padronelo, Amarante – casimiras, sobretudos e xailes;
- Campos Melos & Companhia, Covilhã – casimiras;
- Bernardo Daupiás & Companhia, Lisboa – casimiras e xailes;
- Fábrica Constant Burnay, Lisboa – casimiras, flanelas e cobertores;
- Fábrica do Campo Grande, Lisboa – roupa preta e xailes;
- António Alves Bebiano, Pedrógão Grande – roupa preta;
- Fábrica de Lanifícios de Portalegre – casimiras;
- José Maria Casqueiro, Crato – lã lavada;
- Eduardo Augusto Pereira, Meixomil-Porto – lã.
Por volta do Inquérito Industrial de 1890, trabalhavam nos Esconhais 435 operários (João Alves Bebiano & Cia.). Nas contas do Visconde, as fábricas da Ribeira de Pera empregariam cerca de 1300 trabalhadores, afirmando-se como principal centro industrial do distrito de Leiria e o terceiro nacional do setor dos lanifícios.
António Alves Bebiano, 10 de julho de 1890
da Câmara Municipal de Pedrógão Grande
Na viragem do século, o colosso industrial do Visconde havia soçobrado, a Foz estava parada, a Abelheira de Baixo foi devastada por um incêndio e as sociedades do Bolo e da Retorta atravessavam dificuldades…
Pela tenacidade e força do trabalho das suas gentes, o pequeno vilarejo perdido nas serranias ascende à categoria de sede de concelho em 1914. Das cercas de quatro mil almas nas contagens de 1864, a população das freguesias de Castanheira de Pera e Coentral ultrapassava os 6500 habitantes por altura da emancipação municipal.
Eduardo da Silva Correia, 04 de Julho de 1914
1º Presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera
Até meados do século passado, o movimento das cardações e das fiações mecânicas das fábricas coexistiram com as tramas e urdiduras das centenas de oficinas de tecelagem manual, que se dedicavam ao fabrico de buréis, saragoças, surrobecos, mantas e xailes. Tradicionalmente, os negociantes de tecidos mandavam cardar e fiar as lãs nas fábricas, enquanto a tecelagem se mantinha dispersa pelas muitas fabriquetas e unidades de produção familiar.
Da ancestralidade dos fabricantes e negociantes de tecidos nasceu, em data incerta, o laínte da Casconha. No fomento dos laços de solidariedade e de identificação socioprofissional, os latiqueiros (falantes de laínte) faziam uso da gíria deste socioleto ou linguagem paralela, transmitida secretamente entre iniciados, como forma de se protegerem no alerta codificado diante dos perigos nas longas viagens, carregando nas carroças as fazendas e outros artigos do seu sustento e escondidos no alforge os proventos dos negócios. Não percebido no regateio das feiras e mercados, tanto por compradores como por outros vendedores concorrentes, o domínio da linguagem codificada dava aos latiqueiros vantagens na concertação dos preços e na valoração dos seus produtos.
Se a fábrica do Visconde dominava todas as operações dos lanifícios – desde a chegada das lãs ao lavadouro até ao tingimento e ultimação dos tecidos, tendo sido a primeira a introduzir a tecelagem mecânica – a verticalização do processo produtivo exigia maiores recursos energéticos. Primeiramente, através das caldeiras a vapor, da combustão de gás pobre e dos primeiros motores estacionários a diesel, em complemento à roda motriz, seguido do reaproveitamento dos açudes pela instalação de turbinas hidroelétricas, tipo Francis 30HP, produzidas nas fundições de Fradellos, no Porto.
Nos anos 30, o advento da eletricidade, através da regularidade do abastecimento de energia fornecida a partir da central da Ermida (Lousã), Padilha, Rebelo & C.ª (Lousã) – sucedida pela Companhia Elétrica das Beiras (CEB) – em complemento ao Pisão Novo e às pequenas centrais termoelétricas e hidroelétricas instaladas nas fábricas, conduzirá a uma maior concentração da capacidade produtiva, favorável a uma nova fase de expansão fabril na mecanização das tecelagens. Limitativas da livre concorrência, no que se refere ao estabelecimento de novas unidades industriais e da qualidade e quantidade dos seus produtos, as pautas do condicionamento industrial do Estado Novo induzem a um esforço de modernização contraposto ao abate de teares manuais, mantendo-se o volume global de produção nacional tabelado para cada região.
Na organização corporativa do Estado Novo, Castanheira de Pera é sede de um dos cinco Grémio dos Industriais de Lanifícios, distribuídos pelas seguintes regiões: Covilhã (Castelo Branco), Gouveia (Guarda), Castanheira de Pera (Leiria), Lisboa e Norte. E, sede do Sindicato Nacional do Pessoal da Indústria de Lanifícios para os distritos de Leiria e Coimbra.
No que se refere ao nosso concelho, existiam 8 “fábricas completas”, 3 “fábricas incompletas” (sem tecelagem), 15 oficinas de “tecelagem de artigos considerados regionais” (teares mecânicos), 4 oficinas de “tecelagem de artigos regionais” (teares de madeira), 1 tinturaria e 11 unidades de fabricação de “malhas”.
Albano Antunes Morgado, Lda. (Sarzedas de São Pedro) Albano Simões Carril (Sarzedas de São Pedro) Alfredo Correia(Troviscal) Alfredo dos Santos(Souto do Vale) António Lopes Ladeira(Coentral Grande) Augusto Carvalho(Coentral Grande) Barros, Antunes & C.a (Safrujo) Correia, Tomaz & Morgado, Lda.(Pisão do Vermelho) Diamantino Carvalho(Pera) Domingos Correia de Carvalho, Sucrs., Lda.(Esconhais) Fábrica Ceppas, Lda.(Esconhais) Fernandes, Antunes & C.ª, Lda. (Retorta) Joaquim Ferreira (Pera) José Alves Bebiano, Sucrs., Lda.(Castanheira de Pera) José Antunes(Sarnadas) José Duarte Prior(Sarzedas de São Pedro) José Nunes (Souto do Vale) José Tomaz Henriques, Sucrs., Lda. (Várzea) Manuel Alves Barata(Coentral Grande) Manuel Alves Barata Júnior(Coentral Grande) Manuel Fernandes de Carvalho, Sucrs. Lda(Abelheira) Manuel Francisco(Bolo) Marcolino Alves Tomaz(Troviscal) Pompeu Rodrigues Costa(Castanheira de Pera) Sociedade Fabril de Tecidos, Lda.(Souto Escuro) Sociedade de Lanifícios da Foz, Lda.(Foz) Sociedade Industrial do Bolo, Lda.(Bolo) Tomaz, Costa & Irmão, Lda.(Pereiros) V.ª de João Rodrigues Júnior(Troviscal)
Os Lanifícios na Ribeira de Pera
O Declínio
Se o condicionamento industrial e protecionismo do Estado Novo conduziram à estagnação do tecido produtivo e ao distanciamento do atraso económico português em relação às mais desenvolvidas economias europeias do pós-guerra, a adesão de Portugal à EFTA - Associação Europeia de Comércio Livre, em 1961, abriria novas oportunidades à exportação e diversificação dos têxteis nacionais.Após a morte de Salazar, a abolição do sancionamento do Ministro das Corporações na nomeação dos dirigentes veio abrir novas perspetivas à livre organização e manifestação dos sindicatos. É neste contexto que se destacará a ação política e sindical de Kalidás Barreto, na reivindicação da melhoria dos salários e das condições laborais do pessoal dos lanifícios.
Ainda em 1973, o encerramento da Fábrica Ceppas e a falência da Abelheira, mais o agudizar da situação financeira da Várzea, são o prenúncio do dramático declínio do setor nas décadas seguintes.
Sobreviveu, prosperou, expandiu e internacionalizou-se a fábrica Albano Antunes Morgado, Lda. – atual Albano Morgado S.A.
Os Lanifícios na Ribeira de Pera
A Transformação da Lã
Visita à fábrica Albano Morgado S.A.
Comemorando-se o 110º aniversário da fundação do Concelho de Castanheira de Pera, a história da emancipação municipal é indissociável do progresso dos lanifícios, que tornaram o pequeno vilarejo da até então Castanheira de Pedrógão no terceiro centro nacional deste setor industrial.O início da industrialização na Ribeira de Pera remonta à década de 60 do século XIX. Por volta do Inquérito Industrial de 1881 já existiam 12 fábricas, somando-se dezenas de oficinas de tecelagem. Dos 3972 habitantes em 1864, o crescimento da população atingiria pico demográfico de 6523 habitantes nas contagens de 1911, por altura da emancipação municipal (1914). Para o progresso dos lanifícios em Castanheira de Pera, tal como sucedeu noutros territórios de montanha, contribuíram as tradições ancestrais na manufatura da transformação da lã e o aproveitamento da força motriz da roda hidráulica. Se no condicionamento industrial do Estado Novo foi mantida a capacidade produtiva, o último quartel do século passado seria marcado pelo dramático processo de desindustrialização. Dos 5137 habitantes em 1981, a população caiu vertiginosamente para cerca metade em 2021 (2647 habitantes).
Turismo
A economia do concelho assentou, durante décadas, na indústria de lanifícios. Contudo, a partir de 1980, a indústria começou a atravessar uma grave crise, que levou ao encerramento de várias fábricas. A aposta num diferente sector - o turismo - apresentou-se como uma alternativa viável, uma vez que o concelho possui múltiplos recursos endógenos (ribeiras, serra, património, artesanato, gastronomia,...). Assim, nos últimos anos, verificou-se um grande investimento na potencialização/exploração desses mesmos recursos. Aproveitando as águas da Ribeira de Pera, foi criada a Praia Fluvial das Rocas - um complexo de Praia das Rocas [clique para ampliar]lazer situado num lago com quase um quilómetro de extensão. A grande atracção desta praia é uma piscina de ondas artificiais que ocupa 2100 m2 (a maior do país). Após a abertura deste complexo turístico, em 2005, mais de duzentas mil pessoas visitaram Castanheira de Pera. Actualmente, a Praia das Rocas é o cartão de visita do concelho. Tal como as indústrias de lanifícios, no século XIX, foram o motor de desenvolvimento do concelho; o turismo, no século XXI, é e será, certamente, o novo motor de desenvolvimento do concelho.
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